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Verdade Agora
Desde: 01/06/2004      Publicadas: 14      Atualização: 17/06/2004

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 Gaveta

  03/06/2003
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Brasil mostra a tua cara!

Como dizer o que é a cultura do Brasil? Quer saber mais detalhes, então veja o que Lúcia Santaella diz sobre o assunto.

Lucia Santaella é professora titular da PUCSP com doutoramento em Teoria Literária na PUCSP, em 1973, e Livre-Docência em Ciências da Comunicação na ECA/USP, em 1993. É Diretora do CIMID, Centro de Investigação em Mídias Digitais, da PUCSP. É também coordenadora do lado brasileiro do projeto de pesquisa Probral (Brasil-Alemanha) sobre relações entre palavra e imagem nas mídias.

CULTURA E DEPENDÊNCIA

Nosso país depende economicamente e também culturalmente de outros países. Nossa cultura, nossos gostos e maneiras foram provenientes de múltiplas culturas e invenções. O Brasil não produz sua própria cultura, ele adquire juntamente com outras.
“Toda sociedade economicamente dependente subproduz cultura alienada”.
Esta frase representa a cultura Brasileira, proveniente de diversos países, uma junção de valores e ideais que foram introduzidos no país devido a sua depedência financeira que trouxe a cultural.
Sendo o Brasil país de terceiro mundo, ele não tem condições de produzir, de sistematizar sua cultura com gostos ao seu modo, portanto produz cultura alienada e subproduz cultura de outrem.
Nesse contexto verificamos uma ambiguídade; reproduzir cultura de outros e produzir alienação do nosso país, ao passo que para essas reproduções são utilizadas técnicas próprias do Brasil, porém sem a sua autonômia, essa relação é um tanto quanto confusa, porque somos capazes de reproduzir a cultura de outros povos, mas a nossa não. Isso ocorre, porque somos provenientes de um país que foi colonizado pelos portugueses no século XV, além de sermos um “Brasil” periférico e subdesenvolvido que almeja governar no sitema capitalista, (sistema também trazido políticamente ao Brasil). Então, como resgatar e compreender o valor das produções artísticas de real qualidade, antes produzidas?
Resgatar a cultura de boa qualidade feita na epóca das revoluções em tempos remotos, onde lutava-se mais por um país melhor, é difícil, devido ao contexto que vivemos, a única saída para mudar o cursor dessa história, é fazer da arte um elemento ativo dessa mudança, ou seja, não vedar as criações dos artistas brasileiros e confiná-los a um monólogo solitário. Deixar com que a arte levem-nos a um caminho que proporcione cultura e autênticidade.

Abaixo temos uma música brasileira que retrata as condições do Brasileiro por consequências sofridas na sua colonização. Ela nos mostra as dificuldades e a pobreza cultural, política e econômica que somos obrigados a viver, mesmo sendo possível mudar essa história, desde que se tenha coragem e muita garra, personalidades que todo brasileiro tem, mas que não usa dela por comodidade e despreocupação com a sua nação. Vejamos o caminho percorrido.
Sovik, liv (2002): “O Haiti é aqui/ O Haiti não é aqui”: Música Popular, Dependência Cultural e Identidade Brasileira na Polêmica Schwarz Silviano Santiago”. En: Daniel Mato: Estudios y Otras Prácticas Intelectuales.
Quando você for convidado para subir no adro da Fundação Casa Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos
E outros quase brancos
Tratados como pretos
Só para mostrar aos outros quase pretos
(e são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados.
E não importa se os olhos do mundo inteiro possam estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados.
E hoje um batuque, um batuque com a pureza de meninos uniformizados
De escola secundária em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação,
Nos atrai, nos deslumbra e estimula.
Não importa nada:
Nem o traço do sobrado, nem a lente do Fantástico,
Nem o disco de Paul Simon.
Ninguém,
Ninguém é cidadão.
Se você for ver a festa do Pelô
E se você não for
Pense no Haiti
Reze pelo Haiti.
O Haiti é aquí
O Haiti não é aqui.

De: “Haiti”, CD Tropicália 2, 1993
Música: Gilberto Gil
Letra: Caetano Veloso

Quando no show “Noites do Norte”, Caetano Veloso canta os versos do nosso título, ele aponta para o chão com os dedos indicadores: “O Haiti é aqui” e depois aponta os mesmos dedos para o alto, em gesto típico de dança do carnaval, “O Haiti não é aqui”. As alternativas de um Brasil violento, racista e miserável e um Brasil da percussão, de corpos orgulhosos e da alegria carnavalesca se apresentam como comentários um sobre o outro. Eis um dilema atual, recorrente, histórico, permanente da identidade brasileira: como entender a coexistência de injustiça e felicidade no mesmo lugar social? Vem acompanhado de outra questão: qual é o lugar do Brasil no mundo?
Conforme “Haiti”, não importam as câmeras de televisão do Fantástico, programa dominical de notícias, nem a fama internacional do Olodum, bloco afro que gravou um disco com Paul Simon e cujo batuque é identificado com o Pelourinho, lugar da repressão policial e da festa em “Haiti”. O olhar externo não é eficaz em controlar a violência, mas a afirmação e sua contradição já evocam esse olhar: “O Haiti é aqui, o Haiti não é aqui”. Haiti foi o primeiro país independente da América Latina; é um país de população miserável, de descendentes de escravos. Qual é mesmo o lugar do Brasil no mundo? Ao citar “Haiti”, a letra lembra o lugar chave ocupado pela população de “pretos, pobres e mulatos e quase brancos quase pretos de tão pobres” na história do continente, lugar de revolucionários, sofrimento e violência, lugar que pode ser, ou é, o Brasil. A questão aparentemente interna ao Brasil, de conciliar a festa cívica “a pureza de meninos uniformizados de escola secundária em dia de parada/ e a grandeza épica de um povo em formação” com a violência, de assumir ambos os lados de Haiti, está encravada na história colonial: só a história da colonização e da escravidão além da letra, o som do rap composto por Gilberto Gil está aí para centrar a atenção na diáspora africana podem explicá-la.
Não é à toa que uma vinheta tirada da música popular introduza esta discussão de posições sobre colonização e cultura, questões de poder político e dependência cultural, pois a canção popular brasileira é um campo privilegiado de representação do nacional, onde se concatena e reconcatena repertórios musicais e imagens verbais. Propõe-se aqui, depois de retomar o momento em que se configurou uma estética para a música popular e em que houve forte debate político-cultural nos meios de comunicação, apresentar e discutir dois discursos teóricos. São dois lados da polêmica, de Silviano Santiago e Roberto Schwarz, que representam posições ainda citadas em discussões de identidade nacional e dependência cultural. Se ainda são válidos hoje, é porque ajudam a entender o quadro político-cultural contemporâneo como herdeiro não só da cultura de massa em seu momento fundador no Brasil- os anos 60, mas em sua relação com a história mais longa à qual Caetano alude tão claramente em “Haiti”. Espera-se, então, dimensionar a utilidade de cada uma das duas vertentes para interpretar a dependência cultural na cultura de massa contemporânea em um país como Brasil e talvez no Haiti.

Lúcia Santaella
  Web site: http://www.pucsp.br/~lbraga/  Autor:   Roberta Migliolo e Lúcia Santaella





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